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Contos do Monte de José Lança-Coelho                            

Colecção FICÇÕES, n. 2

ISBN: 978-989-54519-4-4

Edição: 7-2020

Editor: MAZU PRESS

Idioma: Português

Formato: 15 x 23 cm

Páginas: 112

Ref. FIC.2

 

SINOPSE

Estes contos correspondem a uma grande paixão pelo Alentejo, sendo uns fruto das histórias contadas pelo seu pai e, outros, resultantes das vivências experimentadas pelo autor durante anos, no seu contacto com a alma do povo alentejano, no seu monte.

 

O AUTOR

José Lança-Coelho nasceu em Lisboa, em 1950. Licenciado e mestre em Filosofia. Professor do Ensino Secundário. Estreou-se no mundo das letras com «O Enigma da Gruta», Prémio de Revelação de Literatura Infanto-Juvenil da Associação Portuguesa de Escritores, 1988. Tem vários livros publicados.

 

EXCERTO do conto "Café Duplo"

“Por uma tarde soalheira de Verão, entraram na tasca do Ti Alberto da Abóbora dois casais que, pelos seus modos, se via logo que era dessa gente de Lisboa, que andavam ‘encigueirados’ a comprar montes alentejanos que era uma coisa mesmo parva.

Ti Alberto da Abóbora tinha uma casa de comércio – a “Progresso” – aberta na aldeia havia mais de trinta anos que, como ele próprio dizia, tanto vendia ‘pozes’ para pôr na batata nova não deixando formar a terrível borboleta que a consumia, copos de vinho branco aos cabeludos e porcos ‘alemões’ que apareceram e tomaram conta das terras da planície, ‘caféses’ aos ‘espanholes’ que tinham vindo encher os terrenos com oliveiras anãs, ‘buidas’ alcoólicas aos bêbedos locais, como ferraduras para calçar as bestas antes de elas saírem para o campo nos seus trabalhos habituais.

Fizesse a impiedosa chuva ouvir-se com estrondo no telhado de zinco da baiuca, ou o inclemente sol abrasasse o topo da tasca revestido a canas de bambu, Ti Alberto da Abóbora envergava sempre, dentro de casa, como já se percebeu, aquele boné puxado para a frente, que lhe tapava a cara trigueira curtida pelas contrariedades da vida e lhe acompanhava as negras e largas suíças que lhe desciam rosto abaixo, terminando em bico e confundindo-se com o espesso bigode que se formara sobre o grosso lábio.

Quando os presumíveis lisboetas entraram, reinava uma fase de acalmia junto ao balcão, onde as pequenas garrafas de cerveja – as ‘mimis’ –, como as designavam os habitantes da aldeia, rivalizavam com as chávenas de café e os pequenos e bojudos balões onde se deitavam as chamadas bebidas brancas, que desta cor só tinham as manchas que deixavam infinitamente no fígado dos muitos que as emborcavam.

Os quatro forasteiros aproximaram-se do alvo balcão marmoreado com laivos acinzentados aqui e ali e o homem, que parecia o mais velho do grupo, disse respeitosamente:

– Boa tarde, são três bicas e um café duplo.

– Muito bem – respondeu Ti Alberto da Abóbora, sem mostrar a atrapalhação que, de imediato, o invadiu, logo que ouviu o último dos pedidos.

«Café duplo?, mas que raio seria aquilo que o lisboeta se lembrara de pedir? Nunca ouvira semelhante nome, na trintena de anos que  já levava à frente da tasca “Progresso”. Modernices, com certeza, da esparvoada capital» – pensou, ao mesmo tempo que, para não dar parte fraca, começou a tirar das entranhas da ‘mánica’ a habitual e quotidiana trilogia de bicas, esperando um milagre que o salvasse de ter de revelar a sua ignorância.

Quando as três bicas chegaram ao balcão, os lisboetas que as tinham encomendado, não as querendo tomar, por uma questão de educação, sem o pedido do seu quarto companheiro estar satisfeito – o tal do café duplo – cravaram os olhos no dono da casa, esperando que este se despachasse, para que todos, em conjunto, pudessem saborear as suas escolhas.

Nesse instante, Ti Alberto da Abóbora entrou em pânico. Pegou numa chávena de bica, levou-a até à boca da máquina, mas, hesitava sem saber se havia ou não de tirar o desconhecido café duplo para aquele recipiente. Entretanto, ao baixar a cabeça, colocando-a junto ao tubo por onde saía habitualmente o café, o seu boné traiu-o e caiu-lhe da cabeça. Não querendo mostrar a calva que já se adivinhava, com a mão desocupada endireitou aquela peça de vestuário imprescindível à sua personalidade. Porém, o companheiro de tantos anos não se solidarizou com ele e fez menção de se atirar, de novo, para o chão. Mais uma vez, a mão livre de Ti Alberto da Abóbora empurrou o boné para o local de onde nunca deveria ter saído, agora perlado de bagas de suor que se haviam formado na calva lustrosa da personagem, devido ao embaraço em que se encontrava, diante dos olhos dos lisboetas que o trespassavam como eficazes navalhas de cortar pão e toucinho, trabalhando nas mãos de assalariados rurais que iludiam a milenária fome alentejana, sentados num ‘pialito’ de desespero.

E foi neste momento de aflição que o anjo dos taberneiros – sim, porque tal como todas as profissões, também estes têm o seu protector – fez a sua aparição, realizando o pretendido e há tanto tempo aguardado milagre pelo dono da tasca.
Mais miraculoso ainda foi o facto do instrumento do milagre, sem dúvida, comandado pelo anjo dos tasqueiros, ser o lisboeta que pedira uma das três bicas. Este estendeu a mão, apontando uma (...)”

 

ÍNDICE

1. O Brasão
2. O Profeta
3. Au Complet
4. A Importância da Leitura
5. Café Duplo
6. Poderes Ocultos
7. A Triste Ceia de 1921
8. «O Flautinha»
9. O Gavetão Cinco Mil e Tal
10. 8 ou 9, Eis a Questão
11. Gémeas Só Ao Nascer
12. 555
13. Aldraberto João
14. Ele e Ela
15. O Liceu de Beja há 60 Anos, o Porco e o Bode
16. Zé do Forno
17. Swing & Conga
18. Lagartixa
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